CALÍGULA

Albert Camus

Porque Calígula é a carroça destravada contra o destino, a revolta contra a condenação à morte do homem pelo facto de o ser, o desafio contra tudo e contra todos de um ser humano que ainda não soube converter o absurdo do mundo em felicidade.

Na cena nove do primeiro ato proclama Calígula a sua decisão de exercer um poder sem fronteiras, a que responde Cesónia com declarada tristeza “não sei se há que alegrar-se por isso”. Exactamente. Não tem que alegrar-se por isso. E por isso as democracias do mundo arquitectaram fórmulas para instalar fronteiras contra os desejos do poder sem fronteiras. Chama-se a isso Estado de Direito. Mecanismos que protegem (ou deviam) o cidadão da arbitrariedade e da tentação autocrática. E ao governante da atracção do abuso. E, contudo, há ocasiões em que esta certeza, ainda se torna necessário ser proclamada, defendida, armada de argumentos, porque como afirmava Durrenmatt estes “são tempos estanhos em que há que lutar pelas evidências”.

Manuel Guede Oliva

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